Dia 4. Ouves ? Ou alguma amável loucura comigo brinca ?
25/09/2015 blog

Na praça central de Liubliana há a estátua de um poeta. Ontem à noite, no albergue, a primeira coisa de que nos falou o simpático rapaz da recepção foi desta estátua. Trata-se de Prešerev, um poeta romântico esloveno. Está lá, na praça. O seu olhar parece perdido. Na verdade, no hostel, explicaram-nos que olha para a sua musa, e ela, por sua vez, olha para ele a partir da janela de um edifício.

E então voltámos a descer à  praça, apesar da chuva forte. Apesar do cansaço. Sim, Prešerev olha para um grupo de edifícios com vista para a praça, mas onde está ela? Onde está a sua musa? Passámos parte da noite à busca de uma musa, nas janelas de uma praça em Liubliana. E não a encontrámos.

Lembrei-me de uma linha de um poema de Horácio: Auditis, an me ludit amabilis insania?  [Ouves? Ou alguma amável loucura comigo brinca?] Trata-se de um epode, mas já não me lembro qual exactamente. Horácio ouve o som de Calíope, musa da poesia. Mas é o único a ouvi-lo, e este privilégio revela-se ao mesmo tempo uma angústia: está louco ou é o escolhido? A natureza dos poetas é um universo complexo. Ver Prešerev, na noite passada, diante de uma musa que só ele podia ver, fazia-o parecer-se um pouco com Horácio.

Voltámos esta manhã à praça. A musa de Prešerev está lá, esculpida na fachada de um edifício que não tinhamos sequer considerado na noite anterior.

Liubliana é pequena. O seu nome, em eslavo, significa «ser amado». E é difícil não amar um qualquer canto, uma pequena parte, uma ruela desta charmosa cidade. Num dia com chuva pesada e céu cinzento e fechado conseguimos dar a volta à toda a cidade. Chegamos até o castelo, de onde, na verdade, estávamos à espera de desfrutar de uma vista melhor. Mas não é fácil envolver toda a cidade com um olhar, apesar do seu tamanho limitado. A vegetação exuberante, ao redor, protege-a do olhar dos visitantes de hoje. Dos inimigos de ontem.

Agora estamos no comboio. De volta a Veneza. Em quatro dias, visitámos quatro cidades. A parte exploratória da viagem está, então, quase no fim. Hoje à noite iremos desfrutar da companhia de Domenico. Amanhã, em Milão, encontraremos os nossos amigos Vito e Marianna.

Voltado para a janela, com o olhar perdido, posso vero reflexo da minha imagem e de Alessia. Estamos a pensar fazer uma viagem à América do Sul, talvez o próximo ano.

Por enquanto, gosto de demorar-me em redor da estátua de Prešerev. Assim que chegar a casa compro um livro dele: se me encontrarem a lê-lo, já sabem que estarei apenas a tentar prolongar uma viagem. Esta viagem.

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[1]Horácio, Odes II,  tradução de Pedro Braga Falcão, Livros Cotovia, Lisboa, 2008, p.163

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Comment da Anna Guerra - 30 30UTC setembro 30UTC 2015 alle 08:45 08Wed, 30 Sep 2015 08:45:53 +000053.

Bellissimo viaggio!