de Alessandra Giuliana Granata
(jurada do Prémio Strega 2015)
Há três protagonistas nas obras de Sebastiano Vassalli, um dos mais prolíficos e interessantes autores contemporâneos de romance histórico, que morreu há exactamente um mês, antes dereceber o Prémio Campiello pela sua carreira e imediatamente após ter recebido a nomeação para o Prémio Nobel. Vassalli nunca desejou prémios e parece ter desaparecido agora propositadamente, em silêncio, em vez de voltar à ribalta, assim como viveu nos últimos tempos, quase um exilado numa zona calma entre os campos de arroz, levando uma vida simples e retirada.
São então três os seus protagonistas: o tempo, Novara (e os arredores de Novara) e o Monte Rosa, que o seu amigo poeta Dino Campana tinha chamado “quimera”, um termo que Vassalli usou como título doseu romance mais famoso, que lhe valeu o Prémio Strega em 1990 e a nomeação para o Prémio Campiello daquele mesmo ano.
Mas a Novara descrita nos romances de Vassalli não é nada de concreto. É uma cidade, aquela que está localizada em frente das montanhas, que – como o Monte Rosa e muitos protagonistas humanos – nunca surge com o seu nome, quase como se o escritor não quisesse contar os lugares onde viveu ou os nomes conhecidos, mas uma humanidade que, mesmo quando conseguiu deixar a sua marcano mundo, está sempre destinada a uma fama efémera, enquanto Novara, pelo contrário, é o cenário quase surreal de uma peça sobre a história da Itália, símbolo e espectadora das grandes mudanças que têm atravessado o País.
A Quimera nasce a partir da memória de um rosto desbotado de Nossa Senhora num santuário do início do século XVII. O modelo que representa a Virgem é Antonia Spagnolini, uma das mulheres mais belas já vistas na parte baixa do territorio de Novara de acordo com os relatos dos contemporâneos; uma bruxa, abandonada quando era recém-nascida e adoptada naquele tempo infeliz em que era considera do natural e tolerado pelos sacerdotes que as filhas fossem mortas no berço porque a fome e a pobreza eram grandes na baixa da planície de Novara.
Antonia cresce então inesperadamente como filha legítima de camponeses de Zardino, uma aldeia habitada por pessoas supersticios as que não têm temor a Deus, tal como o seu sacerdote, o excêntrico Padre Michele, homem gentil, mais feiticeiro do que sacerdote, que usa a igreja para criar os seus bichos-da-seda. Durante os invernos rigorosos, enquanto tece diante do fogo, Antonia conhece, através das histórias das mulheres, a existência das bruxas quese encontram como diabo no morro do castanheiro, para participar no Sabat. Estremece enquanto as mentes daquelas que contam as histórias tentam já, por inveja e desconfiança, acusá-la dessas mesmas atrocidades.
De repente, avida tranquila da aldeia muda quando Don Teresio sucede ao blasfemo Don Michele, exigindo que as pessoas participem na Missa dominical e ofereçam generosos donativos para a paróquia. Recolhendo os testemunhos de duas gémeas que acusam a menina de ter feito enlouquecer Biagio, “o idiota”, um sobrinho que elas tratavam como um animal, o sacerdote irá denunciar a inocente Antonia para o Santo Ofício.
No entanto, é quase como se um destino irónico já tivesse decidido a desventura de Antonia. Enquanto pastava as ovelhas com assuas amigas, um pintora proxima-se para pedir informações. Depois vai-se embora e pinta para um santuário uma imagem de Nossa Senhora usando o rosto de Antonia, sem esta saber. Ao reconhecer naquela imagem o rosto da exposta, o padre Teresio recusa-se a abençoar o santuário e, quando, contra sua vontade, Antonia dança comum dosLanzichenecchi vindos para pilharZardino, expulsa-a da igreja. A menina, que tinha vivido os primeiros anos de vida no orfanato, não fica chocada com esta atitude do enésimo religioso que não considera ministro de Deus. Quando a vêem durante a noite ir ter com um rapaz, Gaspar, um bandido que conseguiu seduzi-la, Antonia é acusada de participar no Sabat. Interrogada pela Inquisição de Novara e forçada a confessar todas as acusações, Antonia prepara-se para enfrentar um dolorosíssimo calvário.
Mas A Quimera não conta apenas a triste história de Antonia Spagnolini. No seu romance ,Vassalli aborda outra terrível tragédia, a dos “arrozeiros”. Os “arrozeiros” eram pessoas fisicamente deformes ou mentalmente doentes contratadas para acolheita do arroz através do logro. Era-lhes proposto a eles e às suas famílias, muitas vezes ignorantes, um trabalho simples e bem pago. Em vez disso, cruelmente explorados como escravos, os “arrozeiros” eram forçados a trabalhar por horas imersos na água, mesmo com febre. Perseguidos e punidos se tentavam fugir, muitas vezes morriam de fome e até mesmo os mais fortes tinham como destino nunca mais voltar para casa. Na mesma Itália que tem dedicado muitas palavras de solidariedade aos escravos da América, é escandaloso – denuncia Vassalli – terem sido eliminadas da memória colectiva essas pobres vidas perdidas.
São então Novara, o Monte Rosa e as breves vidas dos homens, mas sobretudo o tempo, os protagonistas dos acontecimentos e Vassalli faz questão de o recordar em cada história. O tempo é o senhor que domina os homens enquanto estes tentam dar sentido às suas vidas, sem poder fazer mais do que oferecer um passatempo aos deuses que os observam do alto. As palavras finais de Cuore di pietra, de 1996, reflexão sobre o nosso verdadeiro senhor, ressoa hoje como um adeus de Vassalli a nós e à vida: «Um piscarde olhos do tempo e o homem que escreveu esta história deixará de existir; outro piscar, e em vez da grande casa nas muralhas haverá um edifício de cristal onde serão refletidas as nuvens e as montanhas distantes […]. Somente os deuses são imortais, e tudo o que existe no temp oestá fadado a perecer. Humo humus, fama fumus, finis cinis ».