Abelardo, Heloísa e a ferida da filosofia
18/09/2015 blog

de Amelia Ippolito

Em Abelardo encontramos o valor humano da pesquisa, que se torna uma pedra angular da sua história filosófica e existencial.

A sua paixão pela verdade permanece como uma ferida na sua própria essência, ao longo do seu caminho de homem e mestre, mas é precisamente esta ferida de luz que ilumina o seu caminho, até torná-lo mais humano, mais real e menos árido, rico de inestimáveis descobertas de vida interior; descobertas que ele não teria feito e que não teria chegado a revelar-nos sem o encontro com Heloísa e sem a sua própria dor.

Abelardo é o protagonista da sua história de homem porque a vive até ao fim, incansavelmente, e sem eliminar qualquer um dos factores que compõem a realidade, que ele vive com a sua paixão desesperada de estar no mundo, coisa que o torna extraordinariamente moderno, nunca árido ou fechado em doutrinas estéreis e racionalistas. Melhor ainda, o seu encontro amoroso com Heloísa e a renúncia ao único e verdadeiro amor da sua vida, faz com que ele se apresente vibrante de vida e diferente do protótipo do professor e filósofo da Idade Média.

Sem esse encontro com a sua discípula culta e sensível, sem a ferida gerada por uma beleza que lacera, mas ao mesmo tempo cura, este filósofo da escolástica teria permanecido fechado no seu método e teria chegado até nós com menos eficácia: em vez disso, ele vai directo ao coração dos seus leitores modernos.

A interseção da sua história de amor e dos seus estudos fazem dele um personagem nunca resolvido ou realizado, mas por isso mesmo aberto a nós e ferido com as nossas próprias feridas íntimas.

Aproximar-se de Abelardo significa, portanto, não só aprender um método, entender a sua lógica, compreender o seu sic et non, mas também descer a uma humanidade que nos é revelada através da sua dor de homem, que deixa um rasto de luz e sabedoria atrás de si.

O imenso amor pela lógica, em Abelardo, mostra-nos o seu imenso amor pela razão humana. A sua busca é uma pesquisa racionalista que trabalha com base nos textos tradicionais, mas sempre para procurar a verdade no seu contexto, nunca abstracta, fora do tempo, ou longe do homem.

A razão torna-se o caminho privilegiado para nos a encontrarmos a nós próprio e a Deus, como primeira luz da natureza, que não é possivel censurar ou ultrapassar.

Aqui está sem dúvida a sedução que a personalidade de Abelardo exerceu nos seus contemporâneos e que continua também a exercer nos nossos dias; a eficácia do seu legado está no espírito de pesquisa que deixou na escolástica e na filosofia da Idade Média, apesar das controvérsias e das perseguições que dificultaram a sua existência de homem e mestre.

Abelardo, portanto, encarnou o espírito da pesquisa, a necessidade da razão humana, a sua sede e fome pela verdade, tendo sido ao mesmo o fundador do método escolástico.

O seu método foi o da quaestio, que consiste em analisar textos que fornecem soluções opostas para o mesmo problema, para depois vir a elucidá-lo por via puramente lógica.

Este método prevaleceu ao longo de toda a escolástica e nos seus textos, como por exemplo no Sic et Non: exemplo típico do método de investigação filosófica de Abelardo.

Na verdade, Abelardo, precursor da Universidade de Paris e mestre indiscutível da filosofia medieval, deu grande valor à razão humana contra a autoridade, ao ponto de afirmar que a verdade revelada não é verdade para o homem se este não apelar à sua racionalidade, se essa mesma verdade não puder ser entendida e compreendida. Não é possivel amar o que não se conhece, parece querer dizer Abelardo no que diz respeito ao mistério da fé, com o seu esforço de procurar e tentar entender típico da inteligência humana. Essa mesma inteligência que Abelardo enriqueceu com o valor humano da sua história e do seu encontro de amor com Heloísa, começa sempre com a dúvida, nunca céptica, mas entendida como um estímulo construtivo e metódico.

Claro, o mistério não precisa de ser investigado, ou interpretado, mas Abelardo, com as necessidades da sua razão humana, mostrou humildemente a força do seu coração ferido, do seu corpo abusado, e a consciência da sua fragilidade. Esta tomada de consciência de homem que procura está longe da presunção da razão do homem moderno, muitas vezes entendida como medida exacta e racionalista. Mas a consciência de Abelardo vem do arrependimento absoluto dos seus erros de homem, o que torna mais verdadeiro o seu caminho de filósofo e a sua trajectória de homem, sem dualismos internos e sem conflitos inacabados, mas na pacificação de uma vida passada na necessidade de felicidade e verdade típica do coração humano.

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