Comecei a escrever esta publicação ontem à noite, no autocarro. Depois, hoje de manhã, em Florença, quando o sol ainda não tinha nascido e Vénus despontava clara atrás da cúpula de Brunelleschi. Parecia um sinal no rosto do céu. Imperfeição enobrecedora da beleza. Acho que alguns excertos deste diário irei perdê-los. Entre o que escrevo e o que quero escrever há a diferença de uma viagem.
Chegámos a Florença às cinco horas da manhã. Com antecedência relativamente ao horário impresso nos bilhetes. A primeira paragem foi num McCafé em frente à estação de Santa Maria Novella. Deitámos logo por terra o mito dos viajantes radical-chique: mochilas nas costas, cidades importantes, exposições, cafés literários e… McDonalds. Foi aqui que tomámos o nosso café da manhã:um cruzamento de humanidade que faria crescer água na boca aos narradores mais desejosos de histórias. Enquanto nós inauguramos a nossa viagem com um croissant amanteigado, há pessoas aqui que prosseguem conversas iniciadas ontem à noite. Mas, perguntamo-nos , Alessiae eu, quem sabe se para eles a passagem do tempo funciona como para nós e ainda existem, portanto, as categorias de tarde, noite, manhã.
Florença às cinco da manhã é só nossa (e de quem trabalha na recolha do lixo). Um discurso íntimo que está a melhorar, de facto. A partir de Santa Maria del Fiore, até ao Palazzo Pitti, passando pelo Ponte Vecchio, podemos conversar como duas pessoas que se perguntam se a água está a ferver na cozinha. Ou de revoluções, também. Quando estamos sozinhos, sonhos e prática misturam-se num único discurso. Às vezes, acabam por contaminar-se no léxico, também.
Quando se abrem as portas dos Uffizi somos os primeiros da fila. Atrás de nós, já há uma centena de pessoas. Mas estamos aqui há meia hora, talvez mais. Eu já li cinquenta páginas de La famiglia Karnowski e digo a Alessia que foi uma das raras vezes que acertei no livro a trazer na viagem.
Fico surpreendido por Goethe, no seu tour, ter dedicado apenas três horas à visita de Florença. Santa Maria del Fiore e os Jardins de Boboli são as únicas coisas que menciona da cidade. Aos Jardins de Boboli eu e Alessia só chegamos à noite, pouco antes do horário de fecho. A partir daqui pode-se desfrutar de uma bela vista de Florença e a tentação de nos deitarmos sobre os relvados é forte. Não dormimos há vinte e quatro horas, mas conseguimos obter um pouco de alívio algures na cidade. Lembro-me de que no início da tarde estávamos em frente de um fresco renascentista com sete metros de altura. Este detalhe é tão claro na minha mente quanto o facto de que adormeci imediatamente após lê-lo.Estivemos nas cadeiras de alguma capela renascentista por vinte/trinta minutos. A dormir.
Agora estamos à mesa da Antica sosta degli Aldobrandini. Antes de vir aqui, tentámos organizar um Spritzno Giubbe Rosse, mas as condições não se mostraram favoráveis, como se diz no léxico de negócios. Enquanto estávamos a tentar ver fotos, roubar informações e desfrutar do ambiente que já assistiu à presença dos grandes nomes da literatura italiana, os empregados de mesa insistiam em propor menus despropositados a preços muito elevados. Ok, vamos render-nos à prosa do prosecco barato, dissemos.
De Florença traremos uma galeria de rostos renascentistas, colhidos entre as escolas menos conhecidas em exposição na Galeria Uffizi. E, em seguida: a descida paralela às paredes exteriores dos Jardins de Boboli, um bar de vinhos na margem do rio, as esculturas de Santa Croce, a porta fechada da igreja onde está enterrada Beatrice Portinari, porque o padre faz um pouco como lhe dá na cabeça. E as geometrias que as curvas da cúpula de Brunelleschi desenham com o céu. E com os telhados de Florença.
Em Santa Croce, entrando nas galerias das lápides funerarias, inventamos um jogo: eu sigo três fileiras de lápides e tu outras três.Ganha quem encontra o maior número de mortos ilustres.
No final, não conheciamos nenhum dos nomes inscritos nas lápides. Mas este jogo fez-me pensar que algumas das melhores recordações das nossas viagens envolvem cemitérios: Staglieno em Gênova, Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, o Panteão de Paris, alguns cemitérios na periferia da Capadócia.
Estamos na estrada, em direcção a Veneza. Hoje à noite vamos estar com Domenico. Amanhã será outro longo dia;