de Amelia Ippolito
A chave para entender o espírito de Thomas Mann parece estar num comentário de Luigi Giussani: «Cada um pode calcular até ao grau infinitesimal o seu equilíbrio, a sua saúde, e o seu gosto, mas não pode impedir que, mais cedo ou mais tarde, de alguma forma, um factor inesperado perturbe toda a sua ordem até a arruinar.»
Esta é a novidade que hoje nos traz a história de Der kleine Herr Friedemann (O pequeno senhor Friedemann), mas também de outros romances ou contos de Mann; esta “novidade inesperada”, numa sociedade onde tudo parece estar calculado, organizado, em que a própria razão é reduzida a uma medida exacta e racional, onde o próprio espírito tem de ser reencaminhado para um padrão predeterminado para depois ser rotulado, analisado, dissecado!
Mas eis o inesperado, eis a ocorrência que irrompe sempre na literatura de Thomas Mann como, aliás, na dinâmica da realidade na qual estamos imersos, muitas vezes de forma distraída…
Eis um pormenor surpreendente: o inesperado que perturba os nossos planos.
Isto acontece também em A Morte em Veneza, o encontro com o jovem Tadzio que perturba a agonia tranquila do escritor Gustav von Ascenbach (alter ego de Mann) à deriva dos seus últimos dias, que contudo ainda é tomado pela catarse da sua visão de um deus grego, na qual se escondem, afinal de contas, as antigas pulsões ocultadas de Thomas Mann.
O inesperado acontece, aquele particular não decidido por nós, o espanto do coração que também perturba o pequeno Friedemman, resignado a uma vida de solidão sem janelas abertas sobre o mundo, mas eis que acontece o encontro com Gerda e o momento inesperado que perturba o seu fechamento: mudando assim os seus planos até o ferir para sempre.
Tudo isto é útil para compreender o universo de Mann, onde a doença e a saúde têm um significado sempre duplo: a decadência física é também uma oportunidade para a vida espiritual, é a possibilidade que contrasta com a vida robusta e enérgica, que é ao mesmo tempo afirmação do egoísmo bruto, maçadora mesquinhez do homem “saudável”, que, na verdade, nunca está suficientemente “curado”.
A doença é o fio vermelho que percorre o trabalho de Mann, como em A Montanha Mágica: quantos encontros no sanatório, onde a vida parece sempre uma fronteira ténue que foge das mãos!
Da mesma forma, a deformação do senhor Friedemann e a sua alma frágil de novo ferida por um amor não correspondido; esta paixão do coração talvez seja vista por Mann como uma doença da alma, mas é este mal, este imprevisto que, paradoxalmente, torna a vida vivível e o amor amável, uma vez que cada amor ferido ainda é uma forma de vida em oposição ao vitalismo cego a que nos está a levar este mundo cheio de vazio.
O mundo, portanto, para Mann, baseia-se sempre na lei de contradição, das polaridades opostas, numa perspectiva diacrónica em que se enfrentam uma miríade de personagens feridos pela dúvida e pela desconfiança, comprometidos pela doença ou morbidamente atraídos pela arte e pela música, mas ainda assim abertos à desordem e ao imprevisto, à surpresa que muitas vezes desata as suas vidas para as entrelaçar com as vidas dos outros.
Os Buddenbroocks, talvez o romance mais bem-sucedido de Mann, em vez disso mostra um realismo quase reconciliado com o simbolismo das suas leituras de Jung, e a vitalidade parece fazer as pazes com a doença estetizante desta galeria de homens sós; em seguida, é a “metafísica da salvação” a tocar esses personagens feridos, doentes ou decaídos, quando esses mesmos homens se abrem à maravilha, passado o escândalo da sua imensa dor; um fragmento de luz entra desta forma também na escuridão burguesa desses personagens decepcionados, que mesmo assim nunca deixam, até ao final, de se sentirem cidadãos das suas vidas.
Thomas Mann tem o mérito de começar sempre a partir de si mesmo, da sua humanidade ferida, doente, mas nunca completamente aniquilada, apesar de Nietzsche, e apesar do niilismo doce em que cada escritor autodidacta e só tende a afundar-se. Para o pequeno senhor Friedemann, o pequeno corcunda, parece não haver redenção, e ainda assim a história é arquetípica do universo de Mann, porque contém essas contradições que compõem cada homem e que podem tornar-se as suas riquezas mais escondidas.
“Friedemann”, o próprio nome sugere uma condição humana: o homem da paz.
Mas, mais do que paz, parece ser de renúncia o mundo abafado em que esta personagem vive e onde um dia o destino irá visitá-la; assim, mesmo a renúncia será salva de si mesma, para se tornar espanto diante de um amor que fere e, embora o desespero do acto final tenha lugar no coração do pequeno corcunda, nós queremos acreditar num sorriso secreto de paz no último momento do seu último dia, que não nos foi dado ver, mas apenas intuir.
Nesta história pode-se entrever a esperança daqueles que ainda sabem “deixar-se perturbar” e “envolver” pelo imprevisto, por um encontro improvável, pronto a baralhar os nossos comuns e habituais projectos de vida.
Thomas Mann, penso sia uno dei più grandi narratori di tutti i tempi, è certamente il mio preferito. Ho letto quasi tutta la sua opera, forse tutta, Morte a Venezia, Faust e i Buddenbrook (anche la Montagna incantata, è un capolavoro..), restano per me dei capisaldi della letteratura mondiale.